Saramago e a sua mundivivência

 






SARAMAGO, José, Deste mundo e do outro,7ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1997

  Deste Mundo e do Outro é uma obra de José Saramago que faz a compilação de um conjunto de crónicas publicadas entre 1968 e 1969 no jornal  A Capital.

  Refletindo sobre a situação de Portugal durante esse período de ditadura marcelista, o escritor faz sobretudo referência às pessoas e aos lugares que o acompanharam desde a infância de uma forma poética e emotiva.

  Destaca-se, por exemplo, a influência dos seus avós maternos, Josefa da Conceição e Jerónimo Melrinho, na sua construção enquanto homem : "Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. (...) Não sabes nada deste mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo (...) E, no entanto (…) és alegre. Estou diante de ti, e não entendo. “ (“Carta para Josefa, minha avó”). O mesmo questionamento, imbuído de respeito e afeto surge em relação ao avô: "Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de desconforto, de ignorância. E, contudo, é um homem sábio, calado e metido consigo, que só abre a boca para dizer as palavras importantes, aquelas que importam. ("O meu avô, também").

  Como sempre nos habituou, Saramago evidencia mais uma vez a dimensão humanista e universal sobre a nossa condição. Esta sobrepõe-se sempre à condicionante temporal, originando textos sempre atuais na abordagem dos sentimentos.

   Por outro lado a ironia, por vezes amarga, mas sempre acutilante e realista em relação à forma como nos comportamos enquanto sociedade. É o caso da crónica “São asas” em que, a respeito da estátua de Luís de Camões, o autor nos confronta com as nossas fraquezas ao lidarmos com aqueles que supostamente honramos (ou deveríamos honrar):  “Uma vez por ano põem-lhe ramos de flores aos pés, com um misto de compungimento e  pressa, assim como quem vai apresentar pêsames por um morto que não nos é nada".

  Em suma: Saramago dá-nos um conjunto multifacetado de impressões onde a realidade vista com alguma mágoa e sentido moral deriva, na maior parte das vezes, para uma descrição poética e irreal, algo que se encontra perfeitamente sintetizado no título que dá nome à obra.


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